A agonia do Velho Chico
   Mozart  Luna  │     4 de julho de 2016   │     11:07  │  2

Créditos: Farol da Foz

Créditos: Farol da Foz

É com grande satisfação que iniciamos hoje a postagem do primeiro material do mais novo blog da gazetaweb.com: Meio Ambiente e Turismo. O objetivo é desenvolver neste espaço tão importante a consciência da preservação do meio ambiente. Única forma de garantir a vida para as futuras gerações em nosso planeta.

A primeira pauta não poderia deixar de tratar sobre o Rio São Francisco, fonte de alimento, energia elétrica e empregos para milhões de brasileiros do nosso sofrido Nordeste.

O Velho Chico vive momentos muito difíceis com a baixa de sua vazão, devido à falta de chuvas, e como consequência dos danos ambientais que sofreu ao longo dos anos, começando pelos desmatamentos de matas ciliares que propiciavam a vida dos pequenos rios e nascentes que alimentavam o Rio São Francisco.

A causa do processo de definhamento que o Velho Chico vem sofrendo não está apenas na construção das barragens erguidas pela Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), mas também no desmatamento. As barragens da Chesf representam hoje no “balão de oxigênio”, que mantém o rio vivo, com o fluxo constante, embora reduzido. As  barragens causaram outros tipos de danos à fauna e à flora aquática nativa, com a interrupção do fenômeno da piracema e o fim das chamadas cheias das lagoas temporárias, berço de procriação de peixes e crustáceos.

Créditos: Farol da Foz

Créditos: Farol da Foz

As barragens das hidrelétricas atualmente mantêm o fluxo de água do Rio São Francisco. Em 1500, quando do descobrimento do Brasil, o rio tinha uma força tão grande que suas águas doces chegavam a 4 quilômetros de distância da Foz, no mar. Fato registrado em relatos dos comandantes de navios que entravam no rio para aportar em Penedo. Com as barragens, o rio perdeu sua força e o mar agora invade sua calha causando mudanças no ecossistema, começando pela salinização das águas, comprometendo o abastecimento das cidades como Piaçabuçu.

Créditos: Farol da Foz

Créditos: Farol da Foz

Mudanças na faixa do Litoral próximo à sua Foz também ocorreram, como no povoado do Cabeço, que ficava do lado sergipano da Foz. Já do lado de Alagoas, uma pequena vila, onde se localizava a antiga torre do sinaleiro de navios, também foi coberta pelas dunas de areia. As mudanças  ambientais causadas ao longo do percurso do Velho Chico foram grandes.

Vazão e “roubo de água”

A vazão do Rio São Francisco hoje é de 800m³/s, bem abaixo dos 1.300m³/s, que foi estabelecido em 2001, devido à crise hídrica que se abateu sobre toda região Nordeste. A barragem de Sobradinho, na Bahia, está atualmente com 26% de sua capacidade, mas chegou a ter apenas 1%.  Entretanto, o prefeito de Penedo, Marcius Beltrão, alertou que a vazão poderá baixar ainda mais para a casa dos  500 m³/s. O presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF), Anivaldo Miranda, não confirma esta informação. Segundo ele, foi homologada a permanência da vazão de 800m³/s até o dia 30 de setembro de 2016. Por isso, ele não acredita que seja modificada a portaria.

Segundo Anivaldo Miranda, atualmente o debate da problemática do Rio São Francisco acontece em torno do gerenciamento da vazão. Segundo ele, é preciso encontrar uma forma que possibilite manter o rio alimentando os reservatórios e, ao mesmo tempo, sem interromper outras atividades realizadas pelas águas do Velho Chico. A proposta é manter uma vazão constante através do gerenciamento dos reservatórios.

O presidente do Comitê de Bacia também faz uma denúncia sobre o uso clandestino da água, como o que ocorre no Oeste da Bahia, onde existem grandes plantações irrigadas. Para ele, é preciso haver controle e fiscalização rigorosos da retirada da água do São Francisco. Anivaldo Miranda disse ainda que, quando se retira a água de cima, falta embaixo.

Ele também chamou a atenção dos Governos dos Estados para que acompanhem de perto as atividades do Grupo de Trabalho do São Francisco (GTSS) e ressaltou que os governos dos estados de Sergipe, Bahia e Pernambuco têm tido uma participação constante nos debates, principalmente preocupados com as vazões do rio.

Ameaça à agricultura e ao turismo

O avanço da chamada língua salina, na calha do Rio São Francisco, é uma preocupação para a produção agrícola no trecho que vai da Foz até Penedo. A situação é preocupante principalmente para a produção de arroz.  Em Piaçabuçu, o plantio do arroz praticamente não existe mais devido à salinidade da água e à baixa vazão, que impossibilitam a inundação das lagoas temporárias.   Um dos projetos importantes desenvolvidos no estado de Sergipe, chamado Platô, também está ameaçado devido ao processo de salinização das águas do Rio São Francisco.

A atividade turística também poderá sofrer mudanças, principalmente depois da barragem de Xingó, devido ao assoreamento do rio e ao afloramento das pedras. Na cidade de Piranhas, a largura entre as margens do rio, que já foi de 300 metros, hoje possui trechos com pouco mais de 50 metros. Enormes pedras surgiram no leito do rio colocando em risco a navegação.

A travessia de balsa entre as cidades de  Penedo e Neópolis vem sofrendo bastante.  As embarcações têm que fazer uma grande volta para evitar encalhar. A retenção das águas nas barragens tem sido o principal causador desses problemas. A vazão do rio, que era de 1.300m³/s agora é 800m³/s. Uma redução de quase 50%, que foi considerada necessária para possibilitar a geração de energia elétrica, assim como a manutenção do fluxo de água para os sistemas de abastecimento de água de centenas de cidades do Baixo São Francisco.

Canais ameaçados

O professor Raimundo Nonato, do Centro de Ciências Agrárias (Ceca) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), alertou para o mau uso da água do Canal do Sertão. Segundo ele, os 95 quilômetros do canal estão prontos para servir à agricultura. Ele também faz o alerta sobre o desperdícios da água do canal .

Raimundo Nonato acompanha o projeto do Canal do Sertão desde sua criação, há mais de 20 anos. Mestre em pedologia (solo), Raimundo Nonato tem na palma da mão todas as manchas de solo fértil do traçado do Canal do Sertão. Segundo ele, é preciso fiscalização e orientação para que não haja desperdícios de água.

Nonato aponta os danos ambientais que esses desperdícios estão causando ao solo. “O processo de salinização já é notado em alguns locais. Também há sinais de erosão e inicio da desertificação”, alerta ele.

Créditos: Farol da Foz

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“Essa água é nobre e precisa ser melhor tratada”,  recomenda ele. Raimundo Nonato lembra ainda que o Velho Chico está sofrendo um sangramento tremendo. Ele alerta dizendo que, se não houver um uso racional da água, todo esforço que está sendo feito em projetos como o Canal e a transposição será em vão. Esse sangramento descontrolado poderá levar o Velho Chico a sofrer um colapso total, alerta ele, mas esse assunto vamos abordar mais adiante.

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COMENTÁRIOS
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  1. Constant Ramos

    Replantar a beira do rio, principalmente no Baixo São Francisco, com mariseiras, calumbis, velandes, mangueiras, oitizeiros, carrapateiras, gangorras, bambuzal e outras vegetações nativas que mantinham o rio sadio. Proibir que as cidades ribeirinhas não mais desaguem esgotos rio abaixo a começar de Piranhas, e fazer dragagem nos locais mais assoreados. Falta vontade política para salvar o São Francisco. Rios europeus estavam muito pior, mas os governos assumiram o serviço da recuperação e hoje estão navegáveis e com peixes que haviam desaparecido por causa da poluição. Muito se tem falado, mas pouco se tem feito para que ele possa a voltar a ser indutor da economia fluvial. É uma pena a miopia dos nossos governantes.

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